sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ainda temos tempo pro sentimento?

Quando comecei a compor o tipo de música que vai fazer parte do cd Fim de Ciclo, fiz um monte. Separei 13, num primeiro momento, pensando na questão estratégica: overdose de informação de uma só vez, capacidade física de um cd e coisas desse gênero. Não significa, de forma alguma, que compus apenas 13 músicas e me propus a gravá-las. Na época da escolha, já tinham ao menos umas 20. E mesmo depois que o projeto foi aprovado pelo FINANCIARTE, continuei compondo.

Há, no entanto, que eu ressalte uma questão que vinha - senão me incomodando - me chamando atenção desde a época em que eu trabalhava em rádio: se nos '80 a programação era repleta de músicas românticas, que falavam de amores perdidos e sentimentos infinitos, os '90 e os depois deles foram marcados (estão marcados, pois isso perdura até hoje (?)...) por um constante afastamento às questões caras ao coração, ao menos àquelas que expõem a fragilidade das pessoas em relação ao sentimento.

E confesso, venho pensando assim já faz um tempo...

Quando aprovei um cd com letras confessionais, sentimentais, cheguei a rir sozinho aquele riso de desatino: a quem vai interessar isso? Como arte, funciona; mas quem se interessa em arte, ao menos numa arte que tem essas características de mexer com aquele sentimento mais... incomodativo (pra usar um adjetivo que conheço só do Mano Lima)? - Incomodativo, sim, porque perturba. Mexer nos próprios sentimentos é tarefa árdua (embora essencial). Contudo, vivemos numa época de extravasar nossas emoções apenas em mesas de casas noturnas em que tenham baldinhos com gelo, energético e uma garrafa de vodka. Vivemos num tempo em que a felicidade precisa ser aparente, mesmo que custe qualquer estratagema: empréstimo, vale, financiamento ou roubo....

Qual não foi minha surpresa quando postei no Facebook uma homenagem pros 15 anos de minha filha? Era apenas uma letra de música, chamada Pros meus filhos (compus pra Mariana e o Rafael), junto com uma foto atual e outra de quando ela tinha um aninho... mas centenas de pessoas curtiram, e várias comentaram, notadamente tocadas pelo sentimento...


Ainda me mantenho cético em relação à minha certeza quanto à pouca disposição das pessoas em "viverem" plenamente seus próprios sentimentos, mas admito que a propulsão em relação à  tal publicação fez-me rever alguns conceitos: há, sim, gente que ainda se preocupa com os próprios sentimentos. E, sendo assim, ninguém melhor que um artista para fazer aflorá-los. 

Isso dá gás pra lançar o cd. Melhor que isso, dá ânimo pra continuar compondo...

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Perto das águas

A quem me pergunta sobre essa canção - Perto das águas - que encerra o cd Fim de ciclo, respondo que se trata da minha própria, particular e intransferível Satolep. Creio que deva ter sido por essa música que me tornei fã incondicional de Vitor Ramil, ainda nos 80. Quando ouvi a música pela primeira vez, além da linha melódica diferenciada e acordes + efeitos totalmente incomuns em meios gaúchos até então, o tom melancólico e totalmente carinhoso com que ele retratava seu passado em família, amigos, amor, chamou-me muito atenção.

Não tinha em mente fazer uma espécie de versão dessa música quando compus a minha. No entanto, devo admitir que segue a mesma linha. Perto das águas é pessoal e intransferível. É minha assinatura indelével no projeto todo e traz de forma cronológica (e absolutamente real) os lugares em que vivi, primeiro com a família da qual sou oriundo, depois aquela que formei por "esforço" próprio..

Sem citar as cidades, optei por referir-me aos rios ou arroios que as banham. Nesse sentido, o Taquari é uma das divisas de Lajeado; o Pulador passa em Ibirubá; o Fiúza enrosca-se em Panambi; o Castelhano mantém a umidade em Venâncio Aires; o Rio Pardinho é de Santa Cruz do Sul; e Santa Maria, putz!, lá não tem rio, mas há muitos banhados nos arredores. Caxias do Sul também não tem rio, mas fica no alto da montanha, entre o Antas e o Caí.

Fácil constatar que estou (estamos?) sempre Perto das águas...

Os nomes citados, também não farei maiores comentários, pois a própria letra explicará. É uma letra longa, que me cobrou horas de volta ao passado e me legou uma doce melancolia. Até cheguei a postar um videozinho no youtube com a primeira versão dela, quando pela primeira vez consegui interpretá-la sem ir às lágrimas. Um projeto, um cd, quando se propõe a buscar o mais profundo da alma de um compositor, constantemente leva-o ao choro. Mas um choro até certo ponto bom, de quem depura o passado, encerra um ciclo e se prepara pro futuro...

A ideia inicial de compor essa música vem da foto abaixo, feita no dia 22 de novembro de 1963. Eu tinha então só 3 meses...

Perto das águas  

A lembrança mais longa é uma foto nas barrancas do Rio Taquari
Eu cabia quase inteiro no meio das mãos de Glacy.
Não que eu lembro que estive ali, no entanto o registro é fiel:
A mãe, a criança, o rio, natureza cumprindo o papel.

Quando em novo, guri de colégio, do ladinho do rio me criei,
Descobrindo segredos, mistérios, bobagens, maldades e eis
Que chega a hora de i’mbora, de malas e cuias partir,
Seu Osmar dirigia o carro, qual seria o caminho a seguir?
Perto das águas eu existo, perto das águas.

Nunca soube se rio ou arroio que chamam o tal Pulador,
Arroio talvez por tamanho, ou rio por orgulho e amor,
Pois essas palavras ensinam e o tempo nos cobra depois,
Dividi com Marcelo a irmandade, quis a vida que fossem só dois.
Meu irmão, minha mãe e meu pai, os quatro de muda de novo,
O Fiúza não é o Uruguai, mas abraça nas curvas um povo.
E assim como um rio nunca para, a estrada nos leva além,
E bem perto do rio Castelhano fiz muitos amigos e amei.
Perto das águas eu existo, perto das águas.


O piá deu a chance pro homem já maduro de peregrinar
Que cumprindo o mapa da lenda pras origens devia voltar,
Pois havia bebido da sanga, pois havia saciado a fome,
Primavera renascem os brotos, e eu ganhei Rafael, alma e nome.
Nos banhados da Boca do Monte, Rio Pardinho que eu nunca esqueci,
Mas finquei alicerce nas pedras entre as Antas e o rio Caí
Bem no alto fiz minha choupana ajeitada e cheia de mim
Pra também abrigar Mariana, meus filhos, carinhos, meu fim.
Perto das águas eu existo, perto das águas.

A poesia que conta a história é vertente que não cabe em si,
Correnteza que aviva a memória e carrega o que eu sempre senti.
Pois sei que sou feito de barro e pra terra eu hei de voltar,
Mas que seja bem perto das águas que um dia eu vá descansar...

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Moura Gitana

Desde há muito o flamenco tem me causado deliciosas sensações auditivas, Os acordes de violão, até certo ponto simples, quando na execução de mestres, recebe sempre o ritmo energeticamente percussivo acompanhado de solos habilíssimos. Por mais simples que possam parecer, os contrapontos de palmas acentuam as levadas frenéticas, que são completas com algum tipo de percussão, geralmente com o cajón.

Outro aspecto extremamente chamativo desse tipo de música da cultura espanhola são os vocais: a voz flamenca é sempre rasgada, delirante, sofredora, amargurada, como se o/a cantante estivesse a um passo da morte arrebatadora.

Agora... no momento em que a dançarina trejeita com seus badulaques, envolve-se em seus lenço, desafia com seu leque e vibra suas castanholas, o espectador não sai imune. A entrega é tanta e a provocação é tamanha que sempre causam algo a alguém.

Arrisquei-me, há pouco tempo, em alguns passos básicos da dança. Matriculei-me, fiz aula e tal. No entanto, pra usar de um trocadilho bastante comum nos dias atuais, como dançarino de flamenco sou um excelente matador de baratas no chão. Então, como apreciador, pus-me ao que de melhor poderia  fazer nesse universo. E assim surgiu Moura Gitana.

Ademais, a patroa, cuja foto uso na divulgação dessa letra, exerce bem (muitíssimo) melhor a função de dançarina. A Cesar o que é de Cesar, ou, cada um no seu quadrado...


Moura gitana 

Em torno da fogueira, a cigana, dançando com seus lenços e seu leque,
Pertences, baluartes, badulaques, destino foi traçado pelas cartas.
É tanta dor em cada movimento, a dança é razão da tua vida,
A tua mão é que nunca foi lida, então revela para mim o teu tormento.
Baila, gitana, baila ao luar, me enlouquece,
Me transforma no fogo que te aquece.
Baila, cigana, baila ao luar, teu destino,
Me descobre pequeno, teu menino.

E os meus olhos loucos, tresnoitados, minados de uma gana abelheira
Invadindo abertos as fronteiras daquilo que tu tens como cercado.
E varando todos teus tapumes, penetrando fundo os teus segredos,
Me pego desvendando os teus medos enquanto me revelas teus perfumes.
Baila, gitana, baila ao luar, me enlouquece,
Me transforma no fogo que te aquece.
Baila, cigana, baila ao luar, teu destino,
Me descobre pequeno, teu menino.


Moura embaixatriz do negaceio, herança muito bruxa, meio fada,
De um jeito pouco cura, muito adaga, teus brincos me envolvem num rodeio.
Me quedo pealado por tus ojos carentes, haraganos e famintos,
e embriagado pelo vinho tinto entrego meus pertences e petrechos.
Baila, gitana, baila ao luar, me enlouquece,
Me transforma no fogo que te aquece.
Baila, cigana, baila ao luar, teu destino,
Me descobre pequeno, teu menino.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Nós

Bah!
Bah!
Três vezes Bah!

Essa canção foi o início do Projeto, quando eu nem sabia o que seria depois de uns meses. Escrevi na praia, numa noite tardia, depois de umas cervejas, naquele momento em que aflora aquilo tudo que um cara pensa de si e dos outros.

Essa palavra é bonita, remete à turma, amigos, coletividade. As imagens que evocam de imediato são das tais galeras que se encaixam dentro de um carro, todos sorridentes, num dia de passeio no mato ou na beira do mar. Nós... Poderia ser propaganda de refri ou de smartphones. Dá no mesmo...

Mas Nós, percebi mais tarde, dias depois, que era uma reflexão (daquelas cruéis) acerca de como essa galera que tá aí é. Queremos respostas o tempo todo, mas nem sabemos fazer perguntas... Putz, como isso pode levar a algum lugar? E vamos às missas, aos cultos, às sessões, e rezamos, rezamos, REZAMOS... pra quem? O que pedimos?

Nunca o mundo foi tão religioso, mas nunca houve tanto desencontro. Entupimos as redes sociais em compartilhamentos sobre perdão, compreensão, mas agimos ao estilo beijinho no ombro, desprezando quem discorda de nós.
Insuflamos massas pra reivindicar direitos sem ao menos sabermos em qual passeata entramos. Lemos pouco, mas temos opinião pra tudo! Desse jeito, vamos nos tornando cegos funcionais; estúpidos escondidos nas penumbras que, ao mesmo tempo em que nos escondem, tornam-nos vagos, números, quaisquer uns no meio do todo.

...

Depois de um tempo, criei coragem e toquei a música em público e, por incrível que pareça, ouvi, entre fungados chorosos, frases do tipo essa letra parece que foi escrita pra mim ou cara, é bem isso!...

Dizem que a melhor paga do músico é o reconhecimento. Foi a partir daí que comecei a compor escrevendo exatamente o que tinha na alma, sem concessões... 


NÓS    

Nós, que andamos sem saber pra onde ir,
Rezamos sem saber o que pedir,
Buscamos a razão de estar aqui.

Nós, que estamos implorando por proteção,
Estamos escondendo nossa mão,
Negamos o direito ao perdão.

Quem sabe nós paramos de pedir ajuda ao céu
E enxergamos o que tem além do véu
Que cobre nossos olhos e não nos deixa ver
Que toda a vida nos convida para ser um aprendiz
Da sina de um dia ser feliz.



Nós, que vamos apagando toda a luz,
Penamos carregando uma cruz,
Pagamos muito caro por ser cegos.

Nós, que andamos sem saber pra onde ir,
Rezamos sem saber o que pedir,
Buscamos a razão de existir.


Morocha

Desde que Davi Menezes Júnior lançou Morocha num Festival de música tradicionalista, fiquei com cismas da palavra. Por toda a pulha que veio junto e ficou depois, por bom tempo o vocábulo passou como sinônimo de mulher qualquer ou qualquer coisa assim.
Bem muitos anos mais tarde,  quando o Leonardo (do Sul) já tinha tentado livrar a coitada do pejorativo, dei-me conta de que não sabia nada sobre isso. O Davi deu nome, mas falou sobre seu próprio jeito de ser. E quando Leonardo escreveu Morocha não, respeito sim, de alguma maneira colocou os dois substantivos em rota de colisão: chamar alguém de morocha teria algo a ver com falta de respeito?
Pensei em conferir (e o fiz, até!) em possíveis letras espanholas a acepção, e realmente admito que há, no discurso da morocha latina, sempre uma ligação com um companheiro (a quem chama dueño). Entrementes, optei pelo meu conceito, relacionado às duas músicas dos gaúchos. E, logicamente, fui ver também o conceito da palavra no gauchês.
Daí me dei conta de que no RS a maioria das mulheres são morochas. Vejo-as todos os dias dirigindo carrões ou sendo frentistas, saindo pro trabalho cedinho de manhã ou vindo pra dormir na mesma hora, em saltos 14 ou rasteirinhas, caminhando nas ruas ou bebendo nos bares, rindo nas praças ou chorando em salas de espera...
Essas mestiças, filhas distantes de índios e europeus, de sangue tão forte que nas crismas guardaram o tom amorenado da pele, são o tesouro típico de um Pampa tão meu, tão nosso. 
Depois trouxe uma pra dividir os pelegos comigo e descobrir que, na lida do cotidiano, elas, além da morenez, também trouxeram a altivez do sangue índio, que estava aqui antes de mim, como se estivesse me chamando de invasor dentro de minha própria casa. Ou então da casa que eu, até aquele momento, pensava ser minha... 


Morocha   
Letra e música: Guto Agostini    

De sangue crismado e forte, filha de peles vermelhas,
Dos índios do sul e do norte com um toque europeu.
Morena de cabelos negros e com olhos de amêndoa,
Olhar muita vez perturbado daquilo que perdeu.

O tempo passado e tirano ao longo dos anos forjou essa fêmea,
Mestiça de amor e de ganas, dona de casa de alma haragana.
Menina que cedo deixou a infância
E o sonho de estância ficou pra mais tarde,
Lembrança que aperta a garganta e que arde quando pensa na vida.


Se a flores eu for compará-la, lembro uma flor de capim.
Do mato e da prenda mais rara fiz o meu jardim.
As mãos tão pequenas e ágeis le recorda viagens,
Mudanças de casa e paragens, sina que não tem fim.

Teu jeito ainda causa espanto em todos aqueles que não perceberam
Que tens uma estirpe de campo, tua pele é uma história que tantos contaram.
Morena, tua cor é meu pampa, é rumo de estrada, é caminho de ida,

Morocha querida, é pra ti esse canto...

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Fim de ciclo


Havia de ser exatamente hoje, 21 de outubro de 2014, que eu deveria escrever sobre essa composição. Fim de ciclo não é somente o nome de uma das 13 canções, mas também o nome do projeto. E hoje, depois de uma espera penosa de 3 meses - que pareceram décadas -, o projeto foi contemplado pelo Financiarte e a desejosa gravação do cd pode ser anunciada.
Ao selecionar as músicas para o trabalho, minuciosa e calculadamente elaborei a ideia do que esse momento significaria na minha vida. A expressão Fim de ciclo sempre me soou carregada de pelo menos dois sentimentos opostos: tristeza e felicidade. Talvez melancolia de um lado e expectativa de outro, pois se um ciclo se encerra é porque outro está pra começar.
Nesse sentido, o "meu" Fim de ciclo não é diferente. Exceto que há somente consciência, de um lado, da necessidade de mudança e muita expectativa da nova vida que deverá emergir dessa mudança. Em outras palavras, não se trata aqui de sentimentos opostos, mas de únicos. Um como consequência do outro, e ambos bons.
Toda criatura, em alguma ocasião, se depara com os fantasmas que vêm criando ao longo da vida. E então dispõe-se ao processo de exorcizá-los. Este é, em resumo e com alguma confissão de minha parte, um Fim de ciclo.
Estaria me apequenando em detalhes desimportantes para o leitor me aprofundando em exemplos para ilustrar essas mudanças. Além do que, compreendo que minhas assustadoras assombrações devem ser fantasminhas camaradas na visão de outros. Por isso não me revelarei mais.
A letra da canção Fim de ciclo se insere no estilo tradicional dos compositores que choram as dores da perda, Com um detalhe: se um perde numa separação, os dois perdem; os ciclos se encerram e os dois passam a viver de ilusões...



Fim de ciclo 
Música e Letra: Guto Agostini

Fica sempre a ferida e a mágoa reculuta
Da verdade que reluta em esconder-se da vida.
Ficam ecos de memória nos esteios do passado;
Mais um ciclo encerrado, mais um ponto pra história.
A sala grande da alma é feita um quarto escuro,
Onde ronda o mau agouro e não se encontra viv’alma.
E nas certezas do agora não cabem questionamentos
Nem os puros sentimentos que os levavam outrora.
Ah, mas quem sabe da verdade? – Eu não sei...
Ah, ninguém sabe a verdade... e eu não sei.

Descaminhos se alinhavam, fim de ciclo se apresenta.
Quem fica em casa lamenta, e os olhos de quem vai choram.
Ninguém sustenta na cara nenhum arrependimento,
Antes viver no tormento do que viver malacara.
E assim os dois se afastam em ritos de Deus e Diabo,
Rompendo de vez o cadeado dos elos que os uniam,
Nem mesmo tchau eles dizem, apenas seguem seus rumos,
E pros seus próprios consumos, de ilusões eles vivem.
Ah, mas quem sabe da verdade? – Eu não sei...
Ah, ninguém sabe a verdade... e eu não sei.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Querência...

A querência é o lugar onde sabem teu nome...

Houve épocas em que uma cidade era uma querência. Aquelas cidades pequenas ou que conservam ares de pequenez, em que todos sabem quem são, mesmo que não mantenham laços estreitos de conhecimento.

Parece-me que a querência cada vez passa a ser mais a própria casa da gente, pois até vizinhos fazem questão de não saberem-se um do outro. Não é com uma certa mágoa que isso me vem à mente.

Contudo, também não sei se isso é uma crítica à vida das cidades, pois só conheço a do interior pelas falas. E sabe-se lá até que ponto os discursos não são idealizadores.

Os caras do Terço compuseram e tocaram, lá nos idos dos anos 70, uma música que dizia assim: "Gosto de gente do interior, Do jeito que essa gente diz que sente amor, É amor pra sempre e pra nunca mais, Pois não se esquece o que não se desfaz"... Mas será mesmo assim?

Bem, fato é que, ao retratar minha própria visão, não deu pra sacar de jeito muito diferente, não. Leia, por favor...

QUERÊNCIA 
Guto Agostini

Badulaques e os poucos pertences na mala,
Mochila nas costas que o mundo é pequeno.
Se manda à la cria, pro frio leva um pala
E um sorriso que filtra do mundo o veneno.
Na soga do tempo desbrava horizontes,
Avança até onde o andar permitir,
Lugares e gentes, nações, continentes, desertos e rios, nascentes, poentes, paragens... pra frente seguir.

No passado ficou o lugar da história,
A mãe, o pai, o irmão e os amigos,
E na relação da minha alma a memória
De uma prenda de olhar fugitivo.
Ela não disse nada no dia em que eu fui,
Fez que fez e ao fazer despediu-se de mim.
Nesse dia seus olhos buscaram, miraram, pro fundo de si me tragaram e eu me perdi... mas não me esqueci.



A querência é o lugar onde sabem teu nome.
A querência é o lugar onde lembram de ti.
Por mais que te vayas andando por aí,
Querência é o lugar onde um dia tu fez raiz...


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Junto ao teu coração...

É impossível falar dessa música sem falar de ausências...

Contudo, antes de abordar essas ausências, que são o mote da letra abaixo, quero fazer uma ponderação.

Sempre acreditei que viver a vida envolvesse critérios relacionados à intensidade. É fácil ilustrar tal afirmação: "se fizer algo - o que quer que seja - não faça pela metade", era o que eu sempre pensava. Quando se tem intensidade nas ações, todos os dias são mais completos. A relação que temos com as coisas, lugares e pessoas são mais plenas. Mas é justamente por essa constatação que vem à mente o paradoxo da própria intensidade, ou, em outras palavras, como é que a gente fica quando precisa deixar de fazer o algo que não se estava fazendo pela metade?

Eventualmente temos de nos mudar de cidade, de emprego, de função. Por vezes são as outras pessoas que precisam fazer isso. De um jeito ou de outro, há afastamento. A intensidade vivente ali se volta pras novas ações. E lá atrás, cada vez mais no passado, ficam os momentos intensos.

O bônus é o aprendizado que se tem dos mergulhos intensos de vida, mas o ônus é uma memória presente e cheia de emoção, que se denomina saudade...

Alguém escreveu, com muita propriedade, que saudade é a presença da ausência. E é exatamente sobre isso que a letra abaixo versa. Optei por não ser muito dramático (seria muito fácil pra mim debulhar-me em sentimentos de saudades, pois os tenho às pencas...), por isso o eu-lírico se refere mais ao outro, fala mais do outro, dos sorrisos, das alegrias, dos jeitos do outro. Até porque nos ensinam os tempos que as melhores lembranças são as alegres...

Tenho postado aqui as letras de músicas na mesma sequência que devem ocupar no projeto que ora planejo colocar em prática, e que vai se denominar Fim de ciclo. Casualmente Junto ao teu coração se apresenta para postar e resenhar à véspera de mais um aniversário. Nessas ocasiões, é de praxe que eu lembre com mais intensidade das pessoas que estão longe. Algumas pela distância que as estradas medem em quilômetros; outras, pelas lonjuras ultradimensionais a que todos estão submetidos.

Eu tenho muitas fotos pra ilustrar minhas saudades, mas não tenho todas. Então, pra não ser injusto, escolhi minuciosamente uma, que me representa dois tipos de afastamento: como papagaio-de-pirata, meu amigo Venâncio Manuel Assunção, de quem as estradas me levaram distantes; no plano central, abraçado a mim, meu realmente saudoso amigo Nestor Miguel Wennholz, de quem fui afastado pelas lonjuras da vida...

Mas todos os meus amigos distantes estão representados nessa letra, pois foi com essa saudade geral que a escrevi...




JUNTO AO TEU CORAÇÃO 
Letra e música: Guto Agostini

A metade do que sou leva teu nome,
Que some na estrada, mas deixa saudade.
Tão boa a lembrança, que a trago bem guardada
Nas frias manhãs de geada, numa cuia de mate, junto ao meu coração.

Onde quer que estejas, saibas que guardo
Teus rodeios de alegrias junto comigo,
E teu jeito de amigo que tento imitar,
É meu costume lembrar, pra guardar teus sorrisos junto ao meu coração.



Sei que as estradas nos levam distantes
Mas os recuerdos são as marcas de antes.
E se demora a passar a ausência do sinuelo
faltam até peçuelos pra guardar a conta dos dias sem ti.

Sei que as lonjuras são coisas da vida
Mas tua figura é de essência nativa
Como nativo é o chão, a água e o arvoredo,

As ruas e o passaredo, as gentes e o pampa... e o teu coração.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Ela, tu e eu...

A história que envolve a composição dessa música é muito curiosa.

Ainda verão de 14, fim de março possivelmente. Depois de uma semana de muito trabalho e de uma noite de sexta-feira estendida pras primeiras horas do dia seguinte, de música, risada e cerveja, no sábado estávamos, a patroa  e eu, mais... contemplativos. Sempre considerei bacana essa coisa de não fazer sempre tudo igual, de alternar períodos extremamente sociáveis com outros mais introspectivos, de comunhão e de solidão, de som e de silêncio, de vigília e de sono.

Combinamos, no final da tarde, que eu faria para a janta apenas umas coxinhas de asa e que, muito provavelmente, nossa noite seria mais breve que a anterior, assistindo a um filme, somente nós dois.

Ao descer para a garagem cumprir minha parte do acordo, enquanto o fogo da churrasqueira ganhava força, perguntei-me entre ambientar com música ou não. Optei por não, pelo silêncio. E resolvi sair para a parte de fundos do terreno, a fim de fazer um cafuné nas minhas cadelas, enquanto esperava pra colocar os espetos na brasa. A patroa permaneceu no andar de cima, em seus aviamentos.

Qual não foi minha deliciosa surpresa ao abrir a porta? Naquele céu limpo e azulado escuro de início de noite, uma lua cheia enorme, silenciosa e estonteantemente prateada emoldurava in natura o famoso quadro de São Jorge. Fiquei fascinado, a inspiração brotou naquele exato instante.

Diante da churrasqueira, violão no colo, caneta em punho, bloquinho sobre a mesa... os versos da canção brotaram quase espontaneamente. Deu até aquela suspeita incômoda de que já existisse alguma música idêntica, de tão facilmente que a letra nasceu. Como se a música estive no meu inconsciente. E curti muito essa ideia de sugerir que pudesse estar se tratando de um triângulo amoroso, escrevendo ao meu estilo levemente agauchado.

Quando estava quase concluindo a composição, que não havia levado mais de vinte minutos, a patroa gritou lá de cima:
- Guto, daqui a pouquinho eu desço, pra te fazer companhia, tá?
E eu, ainda precisando de uns poucos minutos pra concluir a música:
- Fica fria, nem esquenta! Enquanto tu não vem, ficamos só nós dois aqui...
Ela não entendeu, mas levou ainda uns dez minutos pra descer. Já ouviu a música pronta assim que chegou. E se emocionou...

Por essa composição e por algumas outras, costumo pensar que os autores musicais não são exatamente criadores, mas sim pessoas que têm a eventual capacidade de estabelecer uma ponte entre o nosso mundo, físico e orgânico, e algum outro, desconhecido, etéreo, numa outra dimensão...

ELA, TU E EU  

Noite bendita, lua de prata,
Faz serenata na nossa janela;
Quem é mais bela: ela ou teu corpo,
Que me ilumina no escuro do quarto?

Tens um jeito bom de me pealar com teus olhares,
Que fascinam como uma lua a se exibir.
Ela é testemunha da tropilha dos segredos
Que sabemos só ela, tu e eu...

Noite infinita, laço de almas,
O brilho que acalma, desperta e mostra
O mundo pequeno no rancho sereno
Que dorme enfeitado de cores prateadas.


O meu sonho, guria

Quando componho, procuro observar quais elementos são tipicamente tradicionalistas e quais não são, analisando música e letra. Tu, que tens acompanhado minhas postagens, já sabes que tento navegar nessa seara pouco explorada atualmente, chamada Música Popular Gaúcha.
No caso dessa música em questão, em termos de melodia e ritmo, percebi que tinha feito um chamamé tipicamente gaúcho e, pra fugir do lugar comum, fiz a guia numa levada country. Bem, não gostei da guia, pensei que seria mais coerente com o projeto fazer mesmo chamamé.
O interessante, entretanto, é que, mesmo chamameceando, dá pra introduzir elementos que universalizem a levada. Por exemplo, que tal tocar Lucy in the sky with diamonds como incidental? No mínimo, ficou curioso.
Em relação à letra, fica a pergunta: esse eu-lírico, esse que canta pra guria, está posicionado em meio urbano ou campesino? Pois te digo: é a imagem perfeita do entorno da churrasqueira, que fica na garagem de minha casa, fincada no meio do bairro, aqui em Caxias.
Além do mais, quer sentimento mais universal do que estar feliz ao lado de quem tu gostas, sabendo que há amigos que tu mesmo escolheste pra querer bem?






O MEU SONHO, GURIA
Letra e música: Guto Agostini

O meu sonho mais lindo, guria,
Passa por tomar um mate contigo
Numa bela manhã de domingo,
Dessas em que a gente acorda cedinho.

E quando a cuia tu vais me passando,
E a tua mão encosta na minha,
Com o canto do olho te vejo me olhando,
Parece que teu desejo adivinho.

Guria, viver de sonhos é tão simples,
Só precisa de um par de coisas, que tu tens:
Vontade de me olhar sorrindo e amizade,
Que existe nas pessoas que a gente escolhe pra querer bem.

E enquanto a costela vai-se assando,
Eu sinto meu coração um braseiro,
A cuscada em torno de nós vai brincando
E eu vivendo com jeito de um moço faceiro.


Guria, quando teus olhos se enchem,
Clareiam a minha vida e transformam
Qualquer manhã de domingo em motivo

Para querer viver para sempre.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Água

Curioso...
Curioso mergulhar na profundeza dos elementos, perceber que meu signo é regido por fogo, com ascendente em fogo, mas a recorrência - sem a menor dúvida - é a água.
Digo curioso, pois penso que muitas vezes (todos nós) nos enganamos pensando isso ou aquilo de nós mesmos. Lembro de todas e tantas vezes que falamos sobre nós mesmos, sobre como nos justificamos através dos signos, conjunções estelares, elementos, o escambau!
Mas vejo na água (não que não veja no fogo também, mas por outro viés!) o ciclo da vida. Umas vezes calminho; outras vezes, avassalador.
Penso em meu irmão e em meus filhos. E em mim, que pensamos em mergulhar sempre, mesmo em dias de frio, mesmo com tímpanos perfurados...
Água não é Norte, mas é Mapa. Água não indica, mas explica. Água não é só básico: é essencial. Água não esconde, revela...
...
Embora toda a minha composição possa ser considerada Popular, e nesse sentido sou essencialmente Urbano, devo dizer que lamento profundamente - mas profundamente mesmo! - o descaso de todos com os cursos naturais de água de minha cidade (de todas as cidades). E, consequentemente, busque a minha identidade com a água limpa, livre, despoluída. Daí, basicamente precise me afastar dos meios urbanos pra vivenciar a experiência singular de viver água.
Essa canção não é um apelo à conservação daquele tipo xaropinho que há por aí. É apenas uma constatação de que, sem água, não há pontos de referência...




ÁGUA  

Acordei olhando o sol nascer e percebi,
Na água viva da sanga,
Que a vida é a água dos regatos cheios,
Correndo para a lembrança.

A saudade em si – águas passadas;
E o sal dos olhos – são olhos d’água;
O meio sentimento – é água rasa;
Nossa ilusão – é um sonho d’água.



Vem pra viver, que a água represada perde a vez,
Entender que o percurso da estrada é fluidez,
Aprender de uma vez que a vida é feito água.

Acordei olhando para a vida e percebi
Que o tempo não vale nada.
Mergulhei na água que me leva para o rio
Dos homens de alma lavada.

O destino em si – é rota d’água;
E o teu sorriso – é água calma;
Nosso medo em vão – é queda d’água;

Tua compreensão – é água rara.





Sina de um teatino

Quem ler o título da composição vai dizer essa é gaudéria! Se chegar a ler a letra, admito, é cheia de expressões agauchadas. O instrumental... bem, é uma milonga. Estilizada, é bem verdade. Mas é uma milonga... Talvez seja por isso me empolguei, convidei um gaiteiro pra me ajudar a gravar a guia e, minado de uma certa coragem, inscrevi-a na 34ª Coxilha Nativista, de Cruz Alta, em 2014.
Não fui aprovado... 
E interpretei de mil maneiras o fato de não ter sido aceito: são mais de 700 inscritos, há nomes bem mais famosos que o meu, há composições mais voltadas ao universo nativista do que essa, blablablá... Mas levei em consideração também a possibilidade de que a música não seja boa suficiente pra constar na relação das 20 que sobram pras duas grandes noites finalistas. Ué, por que não?
Tirante isso, é uma música que muito me agrada. De certa forma, a letra me justifica nas relações afetuosas do passado. Sei quem sou, mas muitos não sabem: essa é a ideia. E, mesmo sem saber, julgam. Tu já passaste por isso, prezado leitor?
Além do que, compus a letra a partir de uns versos de um cara que foi meu aluno em Farroupilha e que hoje é meu amigo, a quem respeito pelos textos que escreve e ainda mais pelo caráter: Egui Baldasso. Até nem sei se somente respeito ou, além disso, me identifico, pois o guri dá mostras de que vai trilhar uma sina tipo a minha: teatina. De tipo poeta, vai sofrer, perseguir ladrando pneus de carros, talvez tenha de ir embora quando não quisesse. E viva um pouco aqui e outro pouco ali ou lá. Desse jeito vai forjar sua própria história.
E assim vamos tocando nossos dias...






SINA DE UM TEATINO

Música: Guto Agostini


Letra: Guto Agostini (inspirada em versos de Egui Baldasso)




Eu sempre vivi a vida como vive um haragano:

andarilho, cão sem dono, sem chegada, sem partida.

Mas deixei menos amores nos lugares que passei

do que as mágoas e as dores dos afetos que eu levei...

Em cada paixão uma história, de cada tempo a saudade,
pois numa alma, a verdade não se esconde na memória.
E de guardar os ressábios das faltas e das ausências
me sobra o destino dúbio de ter no pala a querência...




Me chamam de índio vago, andarengo, desalmado,
Desconhecem meu presente, não sabem do meu passado.
Por conta dos manotaços que me aplicou o destino
É que eu vivo teatino, de coração pela estrada.





E vou tocando meus dias pertencendo somente a mim.

Não fui eu quem quis assim, fiz aquilo que eu podia.

Quando um dia eu acordar e não mais me pertencer,

minha sina vou bolear em um presente qualquer...